21/07/10

CONVITE AOS LEITORES PARA UM DEBATE

Em Outubro de 2009, rezava assim o Furia do Cajado:

Isaltino continua a amealhar votos (pelo menos), no concelho com a média mais elevada de licenciados do país. Para quando uma cadeira de ética nas escolas e universidades?

Como, quem não se sente, etc etc etc, o meu amigo e leitor deste pasquim, Vitor Birne, apresentou-nos as razões de contestação daquela nossa prosa.

Uns meses mais tarde, Isaltino de Morais volta a subir os degraus da justiça e desce com uma carga condenatória mais leve.
Mesmo assim, em cúmulo jurídico, pelos três crimes de fraude fiscal e um de branqueamento de capitais, o Tribunal da Relação de Lisboa condenou Isaltino Morais a uma pena de prisão de dois anos.

A opinião pública parece bem retratada num comentário de um leitor do Correio da Manhã, que começa assim: - Só uma velhinha é que roubou no Lidl (...)
Parece ser a opinião pública, mas em Oeiras, a tal opinião pública terá uma opinião diferente a avaliar pela popularidade (dado subjectivo) e pelos resultados eleitorais (dado objectivo).
Parece, repito parece, haver alguma semelhança com outras situações no país (Valentim, Felgueiras, Marco de Canaveses, Madeira, etc)

Este afigura-se ser um tema interessante de discussão e debate neste espaço.
Por essa razão, endereçámos um convite a Vitor Birne, profundo conhecedor da realidade de Oeiras, para elaborar um texto sobre a sua perspectiva do caso em apreço.

Aqui vai!


Vamos então falar um bocado mais a sério sobre o Isaltino e Oeiras.
Antes de mais algumas declarações de interesse:
· Respeito a vontade do eleitorado, mesmo que não seja coincidente com a minha;
· É para mim um princípio fundamental, inerente ao estado de direito, o que estabelece que até que um processo transite em julgado o réu é considerado, para todos os efeitos, como presumidamente inocente;
· Repudio a facilidade como um cidadão (e são vários os casos, englobando várias matérias) é “julgado” e “condenado” na praça pública;
· Condeno a utilização da Justiça com motivações ligadas à mais baixa política;
· Anseio por uma JUSTIÇA que: seja “justa”, seja “clara”, tome decisões em tempo, que esteja imune aos que dela se pretendam aproveitar, que puna os culpados, que ilibe os inocentes,… que reúna a confiança da sociedade, sendo claro para cada cidadão que é nela que encontra a justa e atempada decisão no que concerne ao contenciosos em que se vê envolvido;
· Repudio tudo o que está associado ao conceito de “que rouba, mas faz”.

Continuando…

Porque é que o Isaltino ganhou as eleições? Tenho pensado sobre esta questão! Ainda não cheguei a conclusões finais, mas já tenho algumas ideias, no essencial, ligadas a duas ordens de questões.

Por um lado:
· A situação de facto vivida no Conselho, sentida pelos munícipes e expressa numa vasta série de distinções que Oeiras vai recebendo ao longo dos tempos (a última tem 2 semanas e relaciona-se com o reconhecimento de que Oeiras é o melhor conselho para se estudar);
· O apoio do Isaltino entre os sectores com menores rendimentos, pelos apoios que vão recebendo da Câmara, entre os quais os relacionados com a habitação, mas não só. Estamos numa área em que se poderá falar de um certo populismo do Isaltino, mas que este sector “está com” o Isaltino não tenho grandes dúvidas, embora não possa avançar com uma expressão quantitativa desse apoio.
· O sentimento, que constatei pessoalmente (mais uma vez sem poder estabelecer a representatividade), de que o Isaltino estava a ser objecto de uma campanha, com origens que ninguém conseguia precisar, mas que conseguiu sobrepor-se à mensagem de “corrupto” passada (em termos bem agressivos) por todos os outros concorrentes e à sentença do Tribunal de Sintra proferida 2 meses antes das eleições.

Por outro lado e reportando aos resultados eleitorais que constam do ficheiro anexo:
· É interessante ver o movimento dos eleitores da eleição para a Assembleia da República, realizadas em 2005 e em 2009, para as autárquicas que se realizaram no mesmo ano:
o Em 2005, nas autárquicas (09OUT), o IOMAF, comparando com as legislativas (20FEV), vai buscar votos a todos os partidos. Sendo significativo o caso do PS que perde cerca de 26 mil eleitores (para o IOMAF e para a abstenção e apesar de eventualmente ter recebido alguns votos úteis de eleitores da CDU e do BE).
o Em 2009, nas autárquicas (11OUT), o IOMAF, comparando com as legislativas (28SET), também vai buscar votos a todos os partidos. Já é mais difícil inferir sobre as transferências de votos, mas regista-se que PS+CDU+BE perderam mais de 20 mil eleitores que, ou votaram IOMAF ou se abstiveram.
· Considero muito significativo que das legislativas para as autárquicas se verifique um incremento da abstenção. Em 2005 de 42126 (31,1%) para 60159 (43,7%), e em 2009 de 49977 (35,0%) para 66462 (46,0%).
· A título de curiosidade, incluo os resultados das presidenciais de 22JAN06 de onde se pode destacar a vitória do Cavaco, num conselho onde, nas legislativas de 2005 e 2009, foi o PS o partido mais votado.

Assim, na procura da resposta à questão “Porque é que o Isaltino ganhou as eleições”, direi que:
1. De facto a obra do Isaltino em Oeiras é visível;
2. Os partidos da oposição (que foram todos, quer em 2005, quer em 2009) não só não conseguiram segurar o seu eleitorado (que votou IOMAF ou se absteve), como também não conseguiram apresentar-se aos eleitores como capazes de conduzirem os destinos do Conselho, melhor do que o Isaltino.

Umas palavras para a Justiça, que tarda em fazer justiça e se presta à instrumentalização política/partidária, num processo que:
1. É despoletado em 2004, meses antes das eleições autárquicas de 2005. Pode ter sido coincidência mas deu jeito a quem estava contra Isaltino;
2. Arrasta-se durante todo o mandato 2005-2009;
3. Em AGO09 profere a sentença que se conhece, 2 meses antes das eleições. Mais uma coincidência? Mas deu jeito a alguns!
4. Em JUL10 a sentença da Relação (para os padrões actuais, não sei se foi muito ou pouco tempo? – lembro-me de ouvir dizer que a Relação estava a despachar em 3 meses – pelos vistos aqui o prazo foi mais dilatado) vem introduzir uma significativa alteração ao quadro em que Isaltino é condenado, dando alguma razão e, sobretudo, alento aos apoiantes de Isaltino, que assim reforçam a tese da cabala.
5. Isaltino vai recorrer! Para quando a decisão final do processo?

De facto uma Justiça assim não serve e dá azo às situações mais perversas.

Está na ordem do dia o estabelecimento da norma que proíbe a candidatura de cidadãos arguidos ou já condenados em 1ª instância (não sei bem em que pé é que está pois já ouvi as duas versões). E de uma outra norma que determina a perda de mandato em determinadas situações. Sobre estas duas normas tenho algumas dúvidas:
· Por um lado eu seria o primeiro a não concorrer ou a demitir-me no caso de se estarem a colocar dúvidas quanto à minha honorabilidade.
· Por outro lado, continuo a resistir aos “julgamentos” sumários feitos na praça pública e ao atropelo do princípio da presunção da inocência até que o processo transite em julgado.

Como as coisas estão, as pessoas estão extremamente receptivas a este tipo de normas, mas eu aqui deixo uma questão: no caso em que um cidadão se vê impedido de concorrer a um cargo político, ou é obrigado a demitir-se, por força de normas ainda a estabelecer; o que é que acontecerá no caso de se vir a provar a sua completa inocência?

Assim, no meu entendimento e como já o disse, a “culpa” do Isaltino ter sido reeleito (com mais 6000 votos do que em 2005) não deve ser atribuída aos “licenciados de Oeiras com falta de aulas de ética”, mas sim:
· A uma Justiça que tarda em fazer justiça e se presta a ser utilizada por interesses políticos/partidários;
· A uma oposição que não só não consegue “segurar” os seus eleitores (nas legislativas) como, sobretudo, também não consegue apresentar-se como alternativa para a condução dos destinos do Conselho.

Caros leitores, está lançado o convite de debate.
Opinem a vosso belo prazer!

16 comentários:

Anónimo disse...

Em abstracto diria que, ao contrário do que se pensa, o "povo" não é a reserva moral e ética do país. Primeiro viver e depois filosofar! o O "povo" não tem uma vida que lhe permita filosofar!

amsf

MMV disse...

Caro Sr. Robles,

Eu já me questionei pelo mesmo, porque elogiei a atitude do presidente do meu partido no momento, o Dr. Marquês Mendes. Contudo, ainda este fim-de-semana, alguém afirmou deixaria o partido se o Isaltino não voltasse para o partido, pois tinha-se provado que não era corrupto.

A verdade é que ele fez um bom trabalho, e chateia-me ouvir a ideia: "ao menos, ele sabemos o que rouba e faz..." ou até: "ele rouba, mas faz..."

A verdade que é não é com cadeiras de ética, porque já existe cadeiras de ética.

Eu acho que o PSD vai melhorar isto, com a revisão constitucional onde coloca a impossibilidade de candidatos em condenados poderem candidatar-se!
Será muito positivo!

Cumprimentos

RR disse...

Tenho efectivamente uma opinião muito má sobre Isaltino. A minha opinião é baseada naquilo que a justiça deu como provada até ao momento - 3 crimes de fraude fiscal e 1 de branqueamento de capitais.
Realmente, para a análise em apreço, não me interessa se ele até conseguir 100% dos votos em Oeiras. Será, isso sim, uma análise desastrosa para a concorrência.
Também não me interessa, no mesmo contexto, se houve oportunismo político em levar este processo a tribunal pouco antes das eleições.Será, também esta, a condenação da promiscuidade política/justiça.
Cuidado com o absolutismo dos resultados eleitorais. Os vencedores, serão respeitados na medida, não só da vontade popular, mas também dos seus comportamentos. Hitler chegou ao poder através de eleições democráticas.
Por cá também temos os nossos tiranetes que ganham eleições, que merecem o meu repúdio, mas só de lá sairam ou sairão por vontade popular ou por decisão de tribunal.

Por esta via(tribunal)não está fácil, ( ver
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1623630 )
e isso é inadmissível.
Estes comportamentos parlamentares, minam a credibilidade democrática. Depois admiram-se de o povo valorizar valores anti-democráticos, desde que o seu imediato interesse pessoal seja satisfeito...
Salve-se quem puder!

Vitor Birne disse...

Nem de propósito, diz o Diário de Notícias de hoje (na net): "Adiada lei que suspende autarcas condenados", e acrescenta "Legislação que se arrasta há cinco anos fica de fora das propostas votadas hoje.

Apesar de PSD, PS e CDS estarem de acordo em suspender os autarcas condenados e impedi-los de se recandidatarem, ainda não é nesta sessão legislativa que a lei entrará em vigor. Estas restrições, que se pretendem aplicar a autarcas condenados na justiça, ficaram fora das medidas de combate à corrupção que vão ser hoje votadas em plenário. Já lá vão cinco anos desde que a lei entrou pela primeira vez na Assembleia, mas está agora condenada a mais um adiamento.

O paradeiro da proposta até é conhecido: está na 12.ª comissão de Poder Local. Porém, só recentemente foi criado um grupo de trabalho para "limar" a Lei da Tutela Administrativa, na qual vão ser consagradas as novas regras para autarcas condenados em processos judiciais.".

E o artigo continua...

Tino disse...

A relação entre a falta de apoio popular e a corrupção não é linear, e é sentida diferentemente, dependendo da classe social.
Qualquer governante que consiga oferecer "bens" a um grupo capaz de o manter no poder, é certo que se manterá no poder.
Se o tamanho do grupo necessário para manter o governante no poder, for pequeno (comparativamente à totalidade da população), como acontece nas ditaduras, então os bens serão essencialmente privados e orientados quase exclusivamente para o grupo de apoio.
Nas democracias, o peso do grupo que pode manter um governante no poder é habitualmente maior e tende para, grosso modo, metade da população votante (excluindo-se apenas os menores de 18 anos).
Nestas condições e sem possibilidade de oferecer bens privados (empregos, casas, etc) a cada um dos apoiantes, os bens oferecidos pelo estado tendem a ser essencialmente públicos (crescimento económico, serviços públicos universais, transparência, etc).

É aqui neste ponto, e num regime democrático que nós, em Portugal nos inserimos.
Os bens que o estado distribui, e que no essencial foram recolhidos dos contribuintes, são grosso modo públicos.
Nos regimes democráticos não deixam de existir as distribuições dos bens privados, como as concessões, as benesses para determinados grupos, etc., mas simplesmente não é possível fazer chegar bens a todos os apoiantes sem ser de uma forma mais generalista.

A corrupção, neste contexto, tem a consequência de a médio/longo prazo, e não no curto, fazer diminuir o crescimento económico e consequentemente reduzir os bens que os governantes podem distribuir, acelerando a sua retirado do poder.
Se apesar da corrupção, os governantes conseguirem, através de outros atributos, como sejam as boas opções políticas ou capacidade de atrair fundos no exterior, então, apesar da "suspeita/confirmação" da corrupção poderá manter o apoio de um grupo suficientemente grande para se manter no poder.

Este texto já vai longo, mas se quiserem aprofundar este tema, da permanência no poder, existe um livro de Bruce Bueno de Mesquita, intitulado "The logical of politial survyval" que é de leitura obrigatória.

Manuel CD Figueiredo disse...

Respeito a vontade do eleitorado (diz-se que "o povo tem o que merece"). A presunção da inocência é inquestionável, mas o comportamento do Autarca tem de ser eticamente exemplar; isso elimina boatos e reduz os "julgamentos" na praça pública. Não aceito o lema "rouba, mas faz", porque o autarca usará toda a sua competência, capacidades e o maior empenho no desenvolvimento do seu concelho e no bem-estar dos concidadãos, que o elegeram - não fará, pois, mais que a sua obrigação.
Há casos em que não se compreende (à primeira vista) a eternização de mandatos autárquicos, quando não existe desenvolvimento, há compadrio, amiguismo, teias de interesses, injustiça social e a continuada perseguição (processos judiciais) a quem não lê pela mesma cartilha dos caudilhos, etc.; como tempero, nasce e engorda a corrupção, visível ou disfarçada.
O caso de Isaltino Morais - não resido em Oeiras - é gravíssimo: pela natureza dos crimes cometidos (não terão sido encobertos durante um determinado tempo?), e pelo seu comportamento ético enquanto responsável político (ministro e autarca).Para a primeira situação, declarava a sua inocência e a gente acreditava (mas foi condenado, não foi?); para a segunda situação só havia um caminho e sem hesitar: a demissão!
O "julgamento" em praça pública é condenável. Fazer-se vitimado (dá votos!) não o é menos. Se, no final, for justamente considerado inocente, óptimo, é sinal de que a Justiça esteve ao lado de um homem honrado.
"Isaltinos" há por todo o lado. Isaltino Morais tornou-se mais mediático. Outros têm a "sorte" de ficar na sombra.
O Poder Local - o tal que está mais próximo dos cidadãos! - está podre. As honrosas excepções são mínimas.

Para uma melhor compreensão do "fenómeno", aconselho vivamente a leitura do livro "Nuvem de Fumo", do Arquitecto J.J. Silva Garcia (Editora O Cão Que Lê), ex-vereador (renunciou ao mandato). Esta obra, de (quase) ficção, trata da transparência e corrupção, do urbanismo sustentável e do Ordenamento do Território. E ficamos a saber como elas se fazem...

S.Lobato disse...

Estive a ler o texto do Byrne e a introdução do Robles, e acho que não devemos centrar-nos apenas no caso Isaltino.

Antes de tomar uma posição, subscrevo, em abstracto, algumas declarações de interesse que o Vitor assinala:

-vontade do eleitorado; um réu só o é depois do processo ter tramitado em julgado, funcionamento da justiça, dar loas a quem é ladrão, mas trabalha para o bem público.

Em concreto, discordo
1) Todos, mas todos os casos, que vieram a público - e se tornaram em "julgamentos populares - só se transformaram em casos judiciais, porque cairam "no domínio público".

A maior parte deles era do conhecimento dos diferentes poderes - político, judicial e policial, mas nunca actuaram, a não ser quando se "mediatizou" o assunto.

E eu falo com conhecimento de causa, pois foi arguido ou testemunha em alguns processos de "abuso de liberdade de imprensa", porque dei assentimento ou neles participei na denúncia das fraudes e crimes que enolviam as teias do poder. Se tal não ciasse na praça pública, não haveria qualquer investigação judicial ou policial.

2) A justiça faz parte do aparelho de Estado e serve-o. Quem escolhe toda a estrutura judicial, desde os Supremos à PGR é o poder político. A justiça é classista, e se adquiriu alguns "laivos de democracia" no actual regime foi porque o este novo regime teve de alargar a distribuição de interesses.
Não existe qualquer independência desse poder da dominãncia económica, social e política.

É por isso que eu digo que o caso Isaltino, é idêntico, em todos os pressupostos e provas a casos que vão desde a DOPA (anos 80) até aos submarinos (hoje, passando pela Moderna e Independente.

O curioso é que, apesar das provas, os processos foram arquivados, prescreveram, ou até foram ilibados os seus autores, sabendo-se que as provas existiam, mas eram sonegadas e/ou desapareciam num concluio de irmandandes, sociedades secretas, interligações de seitas religiosas e profanas.

O Byrne tem razão quanto à votação no Isaltino, mas apenas porque a oposição "interna" do arco do poder está toda em sintonia com ele, por mil laços, desde negociais até solidariedades de aventais.

A outra oposição não tem uma alternativa, nem organização no concelho. Mas, poderiam transformar o caso em assunto nacional, mas também aqui não se repara qual a alternativa política e ideológica face às outras oposições.

Serafim Lobato

RR disse...

Dando seguimento à tendência expressa neste "debate" de deixar para trás Isaltino e outros intérpretes da nossa versão de democracia, recebi recentemente um texto, do qual extraí este parágrafo:
Toda a análise dos problemas actuais, todas as formas de actuação da multidão e das organizações políticas e sociais devem ter, como pano de fundo, a existência do capitalismo e como instrumento de actuação a ligação dos vários problemas entre si e uma perspectiva anti-capitalista.

O texto tem por título, PENSAR À ESQUERDA, SEM VACAS SAGRADAS, e pode ser lido em
http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/

Robles

Andesman disse...

Não conheço em profundidade o "caso Isaltino", apenas aquilo que é do domínio público. Não posso por isso afirmar que ele é culpado daquilo que é acusado, se mesmo a Justiça ainda não o fez de forma definitiva. Contudo, uma coisa parece clara: há assuntos que o próprio não consegue explicar com clareza; como seja, a conta na Suiça. Depois, o povo costuma dizer que onde há fumo há fogo. Claro que isto é uma generalização, que como todas, é perigosa.
Em Portugal, há casos de sucessos eleitorais continuados, cujos meios utilizados para conseguir esses fins, são reprováveis (no minímo) e não são aceitáveis.

O caso da Madeira, é o que conheço mais em pormenor, desde o princípio: os seus métodos, envolvimentos e apoios. E os condicionamentos do povo e da oposição.
Como é do poder autárquico e de autarcas a contas com a justiça, que se trata, vamos à minha opinião sobre esses:

Dos quatro casos mais mediáticos de autarcas a contas com a justiça; o caso de Felgueiras, em que Fátima Felgueiras, foge, volta para concorrer de novo à câmara: o povo do concelho dá-lhe a vitória. A justiça absolve-a, e o seu povo castiga-a, derrotando-a nas urnas.

No Marco de Canavezes, Avelino Ferreira Torres, o crónico presidente da câmara local, cansado de ganhar ali, abandona o Marco de Canavezes, e candidata-se à câmara da sua terra natal, Amarante, e perde. Volta a candidatar-se a Marco de Canavezes, o povo deste concelho que sempre lhe fora fiel, mostra-lhe que nada é eterno e dá-lhe a provar o amargo sabor da derrota.

Em Gondomar, Valentim Loureiro o truculento presidente da câmara, a contas com vários processos, perde o apoio do seu partido o PSD, mas investe por conta própria e ganha. Em Oeiras o mesmo acontece com Isaltino Morais. Veremos como se comportam os eleitores destes dois últimos, quando a justiça der finalmente por terminados os seus processos e eles forem definitivamente condenados ou absolvidos. É que, pelo menos parece, que o povo protege os seus presidentes enquanto estiverem a contas com a justiça. Não se sabe se o comportamento dos eleitores tem alguma coisa a ver com a desconfiança quase generalizada, do povo na justiça. Só um estudo adequado pode esclarecer alguma coisa.

Sabe-se que o povo é louco por "obra feita", entenda-se construções. Os políticos fazem-lhe a vontade, muitas vezes com obras apressadas, de interesse imediato, e mais ainda; de futuro, duvidoso. O povo cego com a "areia" nos olhos, paga-lhes em votos. Os empresários do sector da construção, esfregam as mãos; governam a sua vidinha e muitas vezes a dos políticos. A obra, muitas vezes útil para o povo, outras vezes, mais para políticos e empresários do sector; vê-se de imediato; os seus defeitos e os efeitos da dívida, só mais tarde.

Cria-se neste cenário real, uma cumplicidade entre empresários da construção cívil e outros, nos respectivos concelhos; que quando o autarca é acusado, este agarra-se ainda mais ao poder para melhor se poder defender. Abandonados pelos seus partidos, investem elevadas somas, suas e angariadas, e candidatam-se contra o seu próprio partido, como independentes. Conhecendo-se a influência a vários níveis, político e judicial, passando pela influência sobre os munícipes; Os empresários, apoiam-no e defendem-no, porque assim também se estão a proteger.

Enquanto Portugal for um país de compadres, e a justiça lenta e cheia de "alçapões"; Portugal será um campo propício a situações destas.

Anónimo disse...

VER

http://nuvemdefumo2009.blogspot.com/2009/11/obras-de-po-de-arroz.html

il _messaggero disse...

Creio ser interessante reler as várias opiniões aqui expressas, pois ao fim ao cabo, acabam por aflorar e tocar em múltiplos aspectos que podem e ajudam a explicar toda esta situação.

- Há desde sempre uma ideia de bem comum, subjacente ao desempenho de um cargo público, mas em democracia, as pessoas esquecem-se que é efectivamente legítimo, que haja um trabalho que seja feito tendo em vista a reeleição de mandatos.

- Os ciclos eleitorais, muitas vezes não se compadecem com o tempo necessário para levar a cabo um dito projecto ou reforma. Daí a facilidade com que se caia na tentação de mostrar obra ou ceder aos ditos "populismos" procurando assim maximizar a sua base de apoio. isto falando em termos eleitorais.

- Daí que a adaptação ao contexto eleitoral existente - e note-se que estou a falar dos segmentos que efectivamente votam - seja uma dos pré-requisitos quase obrigatórios para se vir a ter sucesso.

- A generalidade das pessoas, ou o eleitor-comum, não lê, estuda ou sabe que propostas o "seu" candidato apresenta. Aliás, um dos maiores males (porventura necessário reconheço) da democracia é precisamente este: a política é tratada como um domínio especializado, por vezes inacessível ao eleitor-comum, que na maioria das vezes fica pelos slogans defendidos, pelo que lê na CS ou mesmo pela impressão que retém do candidato - numa era cada vez mais mediática, daí a importância do marketing político ou o lado cénico da política.

- Isto significa na prática, que a decisão está nas mãos de uma esmagadora maioria de pessoas, para quem a generalidade dos programas são inteligíveis ou são ignorados por manifesta falta de tempo. Em suma, verificamos que a escolha é feita por uma esmagadora massa de pessoas que não estão preparadas para o efeito. O eleitor-comum tem assim percepções (naturais diga-se de passagem) que roçam o curto/médio prazo. As suas preocupações são mais toldadas pela sua vivência e pela vivência dos que são próximos, não tendo na esmagadora maioria das vezes uma visão a longo prazo, até porque a seu dia a dia não permite. Daí que normalmente obras palpáveis levem sempre vantagem sobre reformas invisíveis que não podem ser logo mensuráveis. Assim como, entre segurança e liberdade, a esmagadora maioria escolheria a primeira opção.

- Menorizando o meu último parágrafo, volto a frisar que este é um dos males (porventura inultrapassáveis) da democracia representativa. Porventura a introdução de mais mecanismos de democracia directa - em especial ao nível mais baixo e local - poderiam vir a produzir um maior envolvimento societal na gestão da Pólis.

- Aproveito agora para focar-me na questão da maior proximidade local. Se esta por um lado produz maior envolvimento, por outro lado pode produzir maiores desvirtuações devido às relações de proximidade que podem redundar em favorecimentos que poderão ser considerados ilícitos. Conhecendo o nosso tipo de sociedade mediterrânea, onde as ligações familiares adquirem grande importância [em contraponto a outros modelos] - é natural que isso possa redundar nas naturais desvirtuações, constituindo as Câmaras como naturais palcos para tais acções.

- Pegando nesta ideia de proximidade e tentando dar um fecho a esta série de encadeamentos de ideias, leva-me de volta à noção de elite, que aqui foi bem aflorada. Os regimes democráticos passam a ideia que na prática qualquer um pode ser eleito de entre toda a massa de população que em princípio terá os mesmos direitos. Só que as armas são desiguais e obviamente há sempre uma elite que se forma e se destaca, sendo que esta tentará sempre se perpetuar no poder.

Muito mais poderia ser dito. Mas creio que já existem aqui imensos pontos aos quais se poderá acrescentar um pesponto.

post scriptum: bom tópico ;)

Anónimo disse...

Certo. A questão é de poder, de um programa de poder socialista;
de uma diferenciação radical entre o que pretendem os que se reclamam de esquerda,
pois eu não sei qual é a diferença de programa de poder entre o PS, PCP e BE.

Eu escrevi no meu blog, tabancadeganture.blogspot.com/, um texto sobre esse tema:

ESQUERDA E REVISÃO DA CONSTUIÇÃO: QUE PODER?

Se quiserem ler, está ao vosso dispor.

Serafim Lobato

Luís Costa Correia disse...

Torna-se difícil, após as anteriores e interessantíssimas opiniões até aqui expostas, dizer algo de novo. No entanto, eis ainda alguns comentários.
No caso vertente confrontam-se 3 padrões de julgamento : os tribunais,
a opinião pública, e a decisão eleitoral.
A justiça, enquanto verdade e apreciação segundo os padrões éticos
vigentes num determinado quadro social, não coincide muitas vezes com
todos aqueles padrões, e daí a existência de perspectivas diferentes naqueles três tipos de julgamento.
Quando um episódio de possível corrupção é revelado nos meios de
informação pública a opinião popular forma-se de imediato para depois
evoluir em função de novos dados, podendo acontecer que venha a
diferir bastante da decisão final dos tribunais, normalmente mais
lenta.
É o que ocorre nomeadamente quando o que veio a lume incluiu por
exemplo transcrições de escutas que por lei são apenas tratadas como indícios
e não como meios de prova, como recentemente sucedeu no mundo do
futebol profissional e na política.
Aqui o princípio da presunção de inocência até trânsito em julgado é facilmente esquecido, nomeadamente quando os casos respeitam a personalidades conhecidas e o que transpareceu de escutas aponta inequivocamente para uma alta probabilidade de existência de procedimentos irregulares.
Porém, confrontados com hipóteses de escolhas e com alternativas débeis, tem acontecido que apesar da opinião já formada muitos cidadãos venham a optar pela
manutenção da situação respeitante às pessoas que, presidentes de
sociedades anónimas desportivas ou detentoras de cargos políticos, consideram culpadas de actos de corrupção mesmo que ilibadas judicialmente.
Tal postura assume obviamente muito mais gravidade, à luz de
padrões de natureza ética, quando a condenação judicial vem confirmar
a convicção de haver culpa.
Assim, e quando se trate de cargos públicos, em que é o dinheiro dos contribuintes que sustenta as remunerações de pessoas que venham a ser condenadas por corrupção, a qual pressupõe a existência de despesas que no fundo prejudicam os cidadãos, pareceria ser mais correcto que os visados tomassem a iniciativa de suspenderem o mandato
na sequência de suspeição judicial ou da apresentação pública de indícios consistentes reveladores de procedimentos irregulares.
Tal prática, procedimento ético bastante comum na maioria das democracias, não
tem infelizmente vindo a ser suficientemente reclamada pela opinião pública, talvez porque considere que a lentidão da justiça poderia causar danos irreparáveis a quem viesse a ser ilibado.
Sinais de uma democracia menos sólida do que muitos pensam.
Luís Costa Correia

Luís Costa Correia disse...

Torna-se difícil, após as anteriores e interessantíssimas opiniões até aqui expostas, dizer algo de novo. No entanto, eis ainda alguns comentários.
No caso vertente confrontam-se 3 padrões de julgamento : os tribunais,
a opinião pública, e a decisão eleitoral.
A justiça, enquanto verdade e apreciação segundo os padrões éticos
vigentes num determinado quadro social, não coincide muitas vezes com
todos aqueles padrões, e daí a existência de perspectivas diferentes naqueles três tipos de julgamento.
Quando um episódio de possível corrupção é revelado nos meios de
informação pública a opinião popular forma-se de imediato para depois
evoluir em função de novos dados, podendo acontecer que venha a
diferir bastante da decisão final dos tribunais, normalmente mais
lenta.
É o que ocorre nomeadamente quando o que veio a lume incluiu por
exemplo transcrições de escutas que por lei são apenas tratadas como indícios
e não como meios de prova, como recentemente sucedeu no mundo do
futebol profissional e na política.
Aqui o princípio da presunção de inocência até trânsito em julgado é facilmente esquecido, nomeadamente quando os casos respeitam a personalidades conhecidas e o que transpareceu de escutas aponta inequivocamente para uma alta probabilidade de existência de procedimentos irregulares.
Porém, confrontados com hipóteses de escolhas e com alternativas débeis, tem acontecido que apesar da opinião já formada muitos cidadãos venham a optar pela
manutenção da situação respeitante às pessoas que, presidentes de
sociedades anónimas desportivas ou detentoras de cargos políticos, consideram culpadas de actos de corrupção mesmo que ilibadas judicialmente.
Tal postura assume obviamente muito mais gravidade, à luz de
padrões de natureza ética, quando a condenação judicial vem confirmar
a convicção de haver culpa.
Assim, e quando se trate de cargos públicos, em que é o dinheiro dos contribuintes que sustenta as remunerações de pessoas que venham a ser condenadas por corrupção, a qual pressupõe a existência de despesas que no fundo prejudicam os cidadãos, pareceria ser mais correcto que os visados tomassem a iniciativa de suspenderem o mandato
na sequência de suspeição judicial ou da apresentação pública de indícios consistentes reveladores de procedimentos irregulares.
Tal prática, procedimento ético bastante comum na maioria das democracias, não
tem infelizmente vindo a ser suficientemente reclamada pela opinião pública, talvez porque considere que a lentidão da justiça poderia causar danos irreparáveis a quem viesse a ser ilibado.
Sinais de uma democracia menos sólida do que muitos pensam.
Luís Costa Correia

Luís Costa Correia disse...

No assunto “Isaltino Morais – Câmara Municipal de Oeiras” confrontam-se 3 padrões de julgamento : os tribunais, a opinião pública, e a decisão eleitoral.
A justiça, enquanto verdade e apreciação segundo os padrões éticos vigentes num determinado quadro social, não coincide muitas vezes com todos aqueles padrões, e daí a existência de perspectivas diferentes naqueles três tipos de julgamento.
Quando um episódio de possível corrupção é revelado nos meios de informação pública a opinião popular forma-se de imediato para depois evoluir em função de novos dados, podendo acontecer que venha a diferir bastante da decisão final dos tribunais, normalmente mais lenta.
É o que ocorre nomeadamente quando o que veio a lume incluiu por exemplo transcrições de escutas que por lei são apenas tratadas como indícios e não como meios de prova, como recentemente sucedeu no mundo do futebol profissional e na política.
Aqui o princípio da presunção de inocência até trânsito em julgado é facilmente esquecido, nomeadamente quando os casos respeitam a personalidades conhecidas e o que transpareceu de escutas aponta inequivocamente para uma alta probabilidade de existência de procedimentos irregulares.
Porém, confrontados com hipóteses de escolhas e com alternativas débeis, tem acontecido que apesar da opinião já formada muitos cidadãos venham a optar pela manutenção da situação respeitante às pessoas que, presidentes de sociedades anónimas desportivas ou detentoras de cargos políticos, consideram culpadas de actos de corrupção mesmo que ilibadas judicialmente.
Tal postura assume obviamente muito mais gravidade, à luz de padrões de natureza ética, quando a condenação judicial vem confirmar a convicção de haver culpa.
Assim, e quando se trate de cargos públicos, em que é o dinheiro dos contribuintes que sustenta as remunerações de pessoas que venham a ser condenadas por corrupção, a qual pressupõe a existência de despesas que no fundo prejudicam os cidadãos, pareceria ser mais correcto que os visados tomassem a iniciativa de suspenderem o mandato na sequência de suspeição judicial ou da apresentação pública de indícios consistentes reveladores de procedimentos irregulares.
Tal prática, procedimento ético bastante comum na maioria das democracias, não tem infelizmente vindo a ser suficientemente reclamada pela opinião pública, talvez porque considere que a lentidão da justiça poderia causar danos irreparáveis a quem viesse a ser ilibado.
Sinais de uma democracia menos sólida do que muitos pensam.

Luís Costa Correia

J.S. Teixeira disse...

Mais um exemplo da Hipocrisia do Sr. Samuel Cruz e do PS Seixal. Saiba porque no blogue O Flamingo.

Tenho dito.

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