Por elevadas razões pessoais e baixas razões políticas, fui, ontem, parar ao Pátio da Galé, à cerimónia de tomada de posse de António Costa e restantes eleitos municipais.
Ambiente esmagador e esganador.
Uma volta pelo espaço e a constatação de que, para além de pequenas ilhas de povo (progenitores de eleitos anónimos?) sentia-se o pulsar engravatado-socialista, mesmo que órfãos do mal amado Seguro. Ávidos de distantes acenos de cabeça ou efusivos cumprimentos, pululavam também esganados engravatados, numa foto de família de quem está ali para sobreviver na legitimidade etérea e persistente dos que odeiam cheiro a suor e fogem das indesejáveis calosidades laborais.
Todos os eleitos são aplaudidos, numa demonstração de superioridade democrática. Amanhã, retirados os nobres cenários, voltarão a aplaudir os seus gladiadores, mesmo que discordem do que dizem e a assobiar os adversários, mesmo que concordem com o que dizem.
António Costa, aplaudido até fazer doer o bem senso, discursa para a República que o espreita através das câmaras televisivas e estende a mão à direita, à esquerda, acima, abaixo, noroeste e até cruza fronteiras nacionais numa afrancesado cumprimento ao seu homólogo de Rabat.
Saio, evitando assistir à cerimónia de felicitações, um inevitável misto de religioso beija-pés com entrega de cartão de visita para qualquer trabalhinho - leve, pois claro.
Duas portas abaixo, mesmo muito abaixo, um sem abrigo desenha o seu corpo na ombreira de acolhedora porta. As mensagens da Lisboa nova não chegaram até ele. Por perto, os esganados passaram e renovaram desinteressantes conversas ou simularam atender o telemóvel, para o tornarem invisível.
O caminho até ao Tejo está sinalizado com mais invisíveis.
Durante séculos o Tejo serviu para isso mesmo - para fingirmos que Lisboa fica mais limpa!
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