Natália tem 57 anos e um tumor na hipófise. Recebe uma reforma de 379 euros, dos quais só fica com 315, por causa de "umas dívidas", e tem de pagar uma renda de casa de 214 euros.
Natália tem dois filhos, o mais novo desempregado ("algum ouro que tinha foi todo destruído para comer"), o mais velho com um ordenado muito pequeno. Trabalha nos serviços municipais, paga uma renda de casa de 250 euros e tem de sustentar quatro filhos. A mulher trabalha nas limpezas.
Por isso, os filhos não a conseguem apoiar. Vive em Ponte de Sor e não tem dinheiro para ir às consultas no Instituto Português de Oncologia (IPO). Também não tem dinheiro para medicamentos. Este mês ainda não pagou a luz. Já foi operada duas vezes. Queixa-se de fortes dores de cabeça. "Tenho uma vista fechada. Há dias que quase não vejo". Vai começar a fazer radioterapia. Natália está numa lista de espera para ser operada em Coimbra. "É muito longe, não conheço ninguém. Tenho uma grande tristeza".
Na semana passada, foi três vezes à urgência do Centro de Saúde de Ponte de Sor. Mas faltou à consulta de Endocrinologia no IPO.
"Às vezes, algumas pessoas amigas ajudam-me. Mas pedir, eu tenho vergonha", diz. Cada vez mais frequentemente, o médico Denis Pizhin atende doentes como ela, sem possibilidades financeiras para seguir tratamento. Sem que ninguém a verbalize, no ar fica a pergunta: quem se responsabiliza pelo que o futuro lhes reserva?



















